Festival DoSol 2010: I believe in a better world for me and you

Após um breve e inesperado momento “voz & vilão”, volta ao palco o trio baixo, bateria e guitarra para encerrar o set de 32 clássicos tanto do Ramones quanto do Misfits, dois membros da família “real” do punk que se uniram através de ex-integrantes para manter viva a história do rock. A platéia ainda tinha fôlego para gritar “what a wonderfull world” e, ainda mais alto, “hey ho, let’s go”. Mas este era apenas o capítulo final de uma saga que começara dois dias antes no Festival DoSol 2010.

Hey Ho, Let’s Go

Em time que se ganha não se mexe: se aprimora. Ana Morena e Anderson Foca sabem disso melhor do que ninguém. Desta vez com dois patrocinadores de peso nas costas (Oi e Petrobras), a dupla de produtores finalmente trabalhou com uma boa folga financeira. E por mais que o festival esteja um pouco maior (em seu segundo momento que se iniciará gratuitamente nesta quarta-feira na Casa da Ribeira), a grana a mais foi investida na qualidade do evento, principalmente com um ganho nítido em som e luz, na captura de imagens (desta vez em HD) e na variedade das atrações. Desta vez não só bandas de todo o Brasil se fizeram presentes, mas também de parte da América do Sul, além da principal atração, o estadunidense Marky Ramone.

O exemplo maior dos luxos que o Festival DoSol 2010 se permitiu talvez tenha ocorrido na noite da sexta-feira, quando o Centro Cultural DoSol abriu para uma centena de convidados curtir uma “balada rock” que funcionou como prévia do que aconteceria no sábado e domingo seguinte. Parte das bandas, produtores e imprensa que trabalharia no evento já se fazia presente e, numa metáfora futebolística, fizeram o reconhecimento de campo.

Problemas no underground

Na semana que antecedia o festival, os produtores reclamavam da ineficiência do poder público em consertar um cano estourado que alagava a rua do evento desde o ano anterior. Findou que eles próprios precisaram tirar do caixa verba para solucionar o problema. Contudo, quando os shows começaram no último dia, voltou a correr água pelo “estreito” da Rua Chile. A produção, já saturada com afazeres do evento, nada podia fazer. Foi quando um garoto da platéia viu a situação, se ofereceu para corrigir o erro e se jogou na lama. Com o cano consertado, o amante do rock nada aceitou em troca. “O esforço que você faz para fazer o evento é tão grande que arrumar um cano era o mínimo que eu poderia fazer”, teria dito o encanador, fazendo questão de ainda assim pagar por seu ingresso. “Arrepiei-me!”, confessou Anderson Foca.

Parece um momento menor. Mas resume e explica bem clima criado pelo Festival DoSol junto ao seu público.

Os que nada cantam

Desde o primeiro Festival DoSol que momentos da programação são reservados ao rock instrumental. Em 2010 a fórmula foi repetida e mais uma vez atingiu bons resultados. O Sex On The Beach animou uma boa platéia no palco menor (do centro cultural) com sua pegada surf (apesar de ter se permitido execuções nada originais como a de Misirlou, clássico que já há algum tempo perdeu boa parte de seu encanto). Mais ainda – ou muito mais – arrebatador foi o show do Camarones, banda dos já citados produtores do evento, no palco maior (do armazém). Não é segredo para ninguém que seus músicos são limitados, talvez com exceção para o baterista Xande. Mas esta limitação é compensada com ótimos e simples arranjos, boas composições, execuções e presença de palco de seus integrantes. O resultado é que dos amplificadores sai uma pancada sonora de derrubar desavisados, fazendo desta uma apresentação daquelas que correm mais rápido do que se imagina. A força do grupo é tão importante que talvez já tenha passado da hora de eles abandonarem a expressão “orquestra guitarrística” de seu nome, uma vez que todos ali são ingredientes importantes no caldo sonoro servido ao público.

Os que cantam em inglês

Humana é uma banda do Chile. Mas você só percebe isso quando conversam eles com a platéia no intervalo das canções. Ou mesmo pelo semblante chicano de alguns de seus integrantes. De resto, é um bom filho do hard rock cantado em inglês, com boas influências de um “tio” metaleiro, o que rebusca um pouco o som em compassos quebrados, mas compensa por um vocal mais limpo. Rebuscamento este que é deixado de lado quando Black Drawing Chalks, AMP e Love Bazukas sobem em seus palcos. São três nomes que buscam e atingem o rock and roll em seu estado mais puro, com baixo, guitarra e bateria, introdução, ponte, refrão e solo.

Ao acompanhar seus shows, não há dúvidas que são donos de grandes canções. Contudo, a língua é sim uma barreira, apesar de todos defenderem que cantar em inglês faz parte do estilo. O resultado é que finda um show para músicos. São ótimas bandas, são ótimos shows, mas o alcance só atinge uma elite de entendidos. Talvez falte a estes grupos o desafio de encarar a língua portuguesa. Falta a frase forte que atinge a platéia na veia, o “pé na porta e soco na cara” do Matanza, o “que bom que eu não amo ninguém” do Jason, ou o “só acredito no semáforo” do Vanguart. Um desafio que ao menos o AMP vem tentando (timidamente ainda).

Os que cantam em português

O festival mal havia começado, o público mal havia chegado, e Nevilton já protagonizava um de seus melhores momentos. É também rock and roll puro e simples, mas cantado em bom e claro português. E esbanjando habilidade no trato com a guitarra, o que anda cada vez mais raro, principalmente em power trios cujos guitarras se aventuram a cantar. Naquele mesmo palco subiria o Vespas Mandarinas com o Fábio Cascadura já no final da noite para se apresentar à platéia local e garantir que devem voltar o quanto antes, mesmo algumas figuras ali já sendo bem conhecidas por aqui, como o Chuck Hipólito (ex-Forgotten Boys e atual Love Bazukas) e o Mauro Motoki (do Ludov).

Mas talvez só Marky Ramone tenha capturado o público melhor do que fizera o Autoramas um dia antes no palco do centro cultural. Não teve para quem quis, ficando muita gente apenas ouvindo ao longe por falta de espaço. Ao ponto de ganhar da produção uma vista grossa para o estouro de tempo, que findou atrasando um pouco o resto da noite. Ao final, um “Surfin’ Bird”, a melhor música de todos os tempos segundo Peter Griffin, para fechar apoteoticamente esta passagem por Natal.

O barulhinho bom

Talvez a melhor sacada do Festival DoSol em relação a todos os seus similares seja a existência dentro de sua programação do Baile Barulhinho Bom. É uma forma de forçar um rodízio de seu público dentro de um único dia, barateando custos que teria com uma noite específica para esta programação, incentivando o consumo no bar uma vez que as 12 horas de música são atingidas, e aproximando o evento de um público mais universitário, exigente até. Em 2010 a farra ficou sob os cuidados da Orquestra Contemporânea de Olinda, do Cabruêra e do Móveis Coloniais de Acaju. E todos cumpriram bem com seus papéis, transformando o evento na primeira prévia do carnaval 2011 no Brasil. Única crítica é que talvez tenha acabado cedo demais, diferente de 2009 quando só se concluiu com o sol já apontando no horizonte.

What a wonderfull world

O Festival DoSol está mais que consolidado. Em 2010 quebrou seu recorde de público, passando facilmente das cinco mil pessoas. Ao ponto de muitos cobrarem da produção uma ampliação do evento em 2011. Ampliação esta que desde já é negada. Ana e Foca pretendem crescer sim, mas qualitativamente. O argumento é que atingir um público maior tantas vezes é atingir um público que não é o seu. E isso pode gerar mais problemas do que benefícios. O objetivo, segundo eles, é conseguir iniciar edições futuras com todos os ingressos já vendidos. Ainda parece um sonho distante. Assim como a vinda de Marky Ramone a Natal parecia distante em 2007. Foram três anos de luta. Mas eles venceram.

Todo cuidado com o DoSol é pouco. E, como bem cantaram aquelas três mil camisetas pretas ao final, “I believe in miracles!”.

Alcidemar Lopes de Araújo

Deixa eu pensar por onde eu começo.

Este cara certa vez descobriu que um de seus melhores amigos, que trabalhava na empresa a qual ele gerenciava, estava de alguma forma levando vantagem sobre alguns clientes da mesma. Uma vantagem que em nada prejudicava a empresa, apenas os compradores de seus produtos. Em um esquema bem feito ao ponto de nenhuma vítima jamais imaginar o que estava acontecendo. Este cara não só demitiu este amigo, como o obrigou a devolver aos clientes da empresa tudo aquilo que lhes fora tomado. Este amigo, por conta da demissão, passou por sérias dificuldades financeiras, visto que era casado e sustentava alguns filhos. Mas este amigo jamais deixou de ser amigo deste cara, e vice-versa.

Esta talvez seja a melhor história que eu conheça deste cara. Porque fala de amizade, justiça e honestidade. Mas não é a única que lembro. Porque este cara aos catorze anos de idade teve o pai assassinado. E junto com sua mãe ajudou a criar oito irmãos mais novos. Junto com os irmãos, humildemente vendeu durante a adolescência tomates na feira. E de vendedor de tomate, passou a ASG de uma multinacional. De ASG, virou motorista. De motorista, tornou-se vendedor. De vendedor, chegou a gerente. De gerente, tornou-se gerente regional. E estamos falando de uma empresa que por muito tempo foi considerada a maior corporação em atividade neste país.

Este cara teve uma infância humilde num bairro humilde de uma cidade humilde de um estado humilde. Mas a humildade jamais foi desculpa para qualquer falha em seus atos. Após 15 anos de primeiro e segundo grau, chegou ao ensino superior e lá batalhou 25 anos por um diploma. Não por incompetência sua, mas porque constantes mudanças ocasionadas por seu emprego, a dificuldade existente para transferência acadêmica, e até uma tuberculose que o acamou por dois anos, o impediram de atingir tal glória no tempo esperado. Mas aos 42 anos estava lá, a seis meses de discursar como orador de sua turma de administração, e prometendo que o próximo passo era encarar uma faculdade de direito.

Este cara não era perfeito. Fumou até aproximadamente os trinta, e isso era sim um defeito. Bebia, o que não era problema, mas se garantia em pegar no volante em seguida, o que é lastimável. Mas naquela época a moral era bem mais frouxa. Não sei se hoje ele faria o mesmo.

E infelizmente preciso usar o futuro do pretérito. Porque este cara certa vez perdeu o trabalho de alguns meses graças a uma falha em seu computador. E precisou refazer tudo em uma semana, o que conseguiu com êxito. Mas isso não o impediu de ter a pressão sangüínea elevada, o que, seis meses antes de conquistar o diploma tão desejado, aos 42 anos de idade, causou-lhe o estouro de veias no cérebro, rendendo-lhe três derrames cerebrais, arrancando-lhe precocemente a vida e deixando órfãos uma esposa e cinco filhos os quais amava profundamente.

Até na hora da morte este cara surpreendeu. Pessoas que sofrem derrame podem no momento do trágico acontecimento reagir de várias formas distintas. Alguns sofrem convulsões, alguns gritam, alguns simplesmente apagam, alguns choram. Ele, quando já hospitalizado e sofrendo o terceiro AVC, simplesmente cantou. O que nem era uma boa porque ele era deveras desafinado e desritmado. Mas quantos de vocês vão poder se dar ao luxo de morrer cantando?

Foram preciso três funcionários para substituí-lo em seu emprego porque achavam humanamente impossível uma única pessoal arcar com as responsabilidades que o mesmo arcava. Não só isso: aquele garoto que vendia tomate na feira tornou-se um homem tão previdente que, mesmo depois de morto, garantiu, por intermédio de pensões e propriedades, uma vida digna para a esposa e os cinco filhos.

Sou fã deste cara. Este cara é meu herói. Este cara é meu pai.

Aos 6 anos de idade me pegou no colo e disse-me: “Hoje você vai aprender a comer.” Colocou no prato uma porção de coisa que eu detestava (feijão, verdura, legumes), misturou tudo com os talheres e disse: “Pense apenas nas coisas que você gosta.” E hoje me orgulho de ser uma pessoa que gosta de comer de tudo.

Aos 7 me pegou novamente no colo, me mostrou um personagem de uma novela das oito que agonizava em um hospital, e me disse: “Ele está assim porque usa drogas. E eu não quero que você jamais use drogas.” E jamais usei.

Aos 8 ele encontrou uma história que escrevi em sua máquina-de-escrever, e, mesmo sem qualquer pontuação ou acentos, todo orgulhoso, mostrou aos meus tios dizendo que seu filho um dia seria um escritor ou jornalista. E lembrei deste dia quando preenchi o formulário da Comperve com “Comunicação Social – Jornalismo”.

Em 1990 ele me acalmou com um abraço quando Maradona driblou cinco, entregando um gol feito para Caniggia, tirando o Brasil da Copa do Mundo de Futebol. Naquele mesmo ano, quando com 39 graus de febre minha garganta sangrou de tão inflamada, ele esculhambou a médica que preferiu ir à Unimed resolver burocracias a me atender.

Ele cresceu ouvindo Roberto Carlos, Dorival Caymmi e Nelson Gonçalves, mas, numa época em que punham em lados distintos a cultura jovem e a adulta, ele se encantou com tudo que cantava Cazuza, e mostrava para os coroas caretas que o acompanhavam e não costumavam dar bola para aquelas coisas “barulhentas”.

Vez em quando me pergunto como teriam sido meus últimos 18 anos se o destino não o tivesse levado embora. Fico imaginando como ele teria reagido ao saber que a primeira canção que aprendi a tocar no violão foi propositalmente “Faz Parte do Meu Show”. Ou como seria a farra que ele faria quando do lançamento do primeiro disco da minha banda. Tenho muita curiosidade em saber o que ele teria a dizer quanto ao fato de eu ter decidido trabalhar em casa, de eu ter aberto uma empresa para trabalhar na legalidade. O que ele teria a dizer desta ruma de bobagem que diariamente escrevo por aqui.

Hoje penso muito mais nele do que há dez anos. Sinto muito mais sua falta. Outro dia desabei no choro por uma bobagem tremenda. Lembrei que costumava deixá-lo me esperando na porta da escola por 10, às vezes 20 minutos, enquanto continuava a jogar bola, mesmo sabendo que o mesmo já havia chegado. Dez minutos de sua companhia que jamais voltarei a ter. Doeu-me muito pensar que não aproveitei da melhor forma possível o pouco tempo que tive ao seu lado.

Hoje, quando o desespero bate, quando as lágrimas vêm, ou até mesmo quando o desespero não bate, quando é algo bom como um diploma, uma vitória, um gol do Botafogo, vez em quando eu olho para o céu, que é para onde por bastante tempo eu acreditei que ele tinha ido, e torço para que eu esteja errado, ou seja, para que de fato o céu seja o destino das boas pessoas que deixam a vida, e tento me sentir abraçado por ele. Em retribuição, vez em quando cato um violão e sussuro a melodia de “Marina Morena Marina” porque sei que ele adorava. E penso baixinho, com medo de as pessoas por perto lerem meus pensamentos e me acharem louco: “Cara, este cara era O cara!”

Este cara, hoje, se vivo, faria 60 anos de idade.