brigittebereu

Jesus Gay

 

– Jesus Gay.
– Jesus Gay?!
– Jesus Gay.

Aquele não era o melhor ambiente para termos aquele diálogo tão, digamos, profano. Colégio Nossa Senhora das Neves. Espécie de filial de uma rede de escolas católicas. Não lembro bem a história mas, aparentemente, nascia na Áustria as “mães” daquela congregação. Frankboy e Negão apenas escutavam. Quanto a Eider, respondia à minha incredulidade?

– O outro nome que você pensou foi Jesus Gay?!
– Jesus Gay.
– Não sei…
– É porque é assim… Você pensa em Jesus. Aí pensa naquilo que mais vai de encontro ao que Jesus prega. E nada melhor para representar isso que o universo gay. Daí o nome: Jesus Gay.

Havia pouco tempo, decidira eu não mais acreditar em Jesus. Mas hoje sei que àquela época ainda acreditava. Pois foi a ele que me dirigi quando mentalmente disse olhando aos céus: “não mais acreditarei em você”. Ridículo, eu sei. Mas ocorreu. E foi muito importante para tudo que eu viria defender tempos depois.

Sei que, sentado na escadaria do auditório onde costumávamos ensaiar, ouvi com imenso desconforto aquele nome.

– Não é bem assim. Além do mais, com um nome desses jamais conseguiremos tocar no festival de artes daqui.
– Então terá de ser o outro nome mesmo.
– Tem certeza que vocês não preferem “Mordake”?

Frankboy saiu do silêncio:

– “Morda aqui”?! Esse “homi” é fresco.
– Mas a história é massa! Um homem com duas faces, sendo uma normal e outra na nuca! A da nuca sempre triste, atormentando-o, causando pesadelos, chorando. E uma história real! Pesquisei na internet. Ele realmente existiu.

Sim. Em 1998 já tínhamos acesso à internet. E sim, ainda acreditávamos nela.

– Mordake é péssimo! Parece nome de banda de metal. Essa história é bizarra. Não quero uma história tão mazelenta resumindo o som que fazemos.
– Ele está certo, Marlos. Mordake não é legal. Ninguém vai pronunciar isso direito. Você mesmo não sabe se a pronuncia é essa.

Pior que eles realmente estavam certos.

– Então é isso? Está todo mundo de acordo?
– Só falta você concordar.
– Bom… Se sou voto vencido, então é isso. Brigitte Beréu venceu.

Era uma “homenagem” a Brigitte, um travesti que fora assassinado e alguns anos antes ganhara não só capa dos jornais locais, mas música de uma banda que muito nos influenciava, o General Junkie. E também pretendia soar como um trocadilho com Brigitte Bardot, ícone da beleza da segunda metade do século XX que talvez só não fora mais desejada que Marilyn Monroe. Unir opostos parecia ser uma obsessão de Eider, o pai da idéia. Mesclava ele com estas duas palavras aquilo que a sociedade mais admira, a beleza de uma mulher, e mais ojeriza, a prostituição homossexual.

Mas algumas questões nunca me foram respondidas: que problema havia de o nome que sugeri soar gay se as outras opções eram Brigitte Beréu e Jesus Gay?! Aliás, que problema havia em soar gay? Ou ainda: a história de Brigitte não era igualmente “mazelenta”?

Incoerências que seriam constantes em nossa breve história.

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Publicado por

Marlos Ápyus

Músico, jornalista e desenvolvedor web.

2 comentários em “Jesus Gay”

  1. Com coerência ou não, venceu o melhor nome! Soa bonito. E, sim, Brigites Beréus (como eu sempre adorei chamar) foi uma banda muito massa que eu adorava ir pros shows, verdadeira tiete.
    Bjs!

  2. Pingback: Aline D'Amore

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