Eu tinha nove anos quando decidi ignorar as ordens de meu pai de deixar seu quarto porque ele estava com muita dor de cabeça e precisava dormir. Sabia que ele costumava cair rápido no sono e podia eu continuar a assistir às “câmeras escondidas” do Silvio Santos em sua TV sem o menor problema. Mas não se passaram nem dez segundos quando vi minha mãe pular por sobre seu corpo e se agarrar ao telefone ligando para meu tio que era médico. Foi quando notei que meu pai se debatia no colchão em convulsões. Sofria ele ali o primeiro de três derrames que lhe atingiriam naquela noite. E que levariam sua vida embora cinco dias depois.
A notícia veio na madrugada. Meu tio disse na ligação que precisava conversar conosco. Meu corpo tremia. Todos nós tremíamos. Quando a porta abriu e ele abraçou minha mãe, caí em desespero. Ninguém tem estrutura emocional para receber uma notícia dessas, muito menos uma criança de nove anos de idade. A pior dor que senti na vida. E que ainda dói vez em quando, como agora, no momento em que escrevo.
Eram nove horas da manhã quando saía do banho. Estava me arrumando para o velório. Passou um comercial de uma rede de postos estrelado por B.B. King (acho). Na ocasião tocava uma música que eu gostava. E me dei a assobiá-la. Logo fui censurado por meus parentes. Achavam desrespeitoso de minha parte para com meu pai que falecera horas antes. E assim silenciei. Por muito tempo. Só voltei a sorrir sem medo anos depois, já no final da adolescência. Até então, cada vitória era amarga, arrancava-me sorrisos com a estranha melancolia de que algo faltava e, pior, como se eu inconscientemente tivesse alguma culpa no ocorrido.
Meu pai era uma das pessoas mais felizes que existiu. Um cara que levantava o astral de qualquer ambiente. Mas infelizmente temos a cultura de respeitar nossos entes queridos que perdemos com nossa tristeza. Eu não quero isso para mim. Curto mais certas culturas gringas que reúnem amigos para celebrar a lembrança de um finado em vez de chorar a sua morte. Por mim, meus amigos organizariam um churrasco no dia do meu enterro. E encheriam a cara ao som das músicas que eu mais curtia.
Ontem morreu Fefeu, outro mestre, a exemplo de meu pai, da arte de transformar um encontro entre amigos em momentos extremamente felizes. Estávamos distante há alguns anos, como naturalmente costumamos ficar da maioria de nossos amigos (infelizmente). Mas ele nunca deixou de ser uma figura que eu fazia questão de abraçar sempre que encontrava aí pelo mundo.
Em uma das várias lembranças que agora ressurgem, Fefeu comentava uma piada que contara para a sua mãe sobre a morte de seu irmão (falecido uns dez anos atrás). Sim, da morte do irmão dele. Para a mãe dele. Se bem lembro, “brincava” ele com o título da novela “Éramos Seis”, mas posso estar enganado pois até onde sei eles eram só três irmãos (que somados aos pais “eram cinco”). Desrespeitoso? Não. Não acho. Nunca conheci o irmão dele, mas sempre vi em Fefeu um cara que tirava o melhor do pior. Sempre curto pessoas assim. E este era só mais um momento. Talvez por isso gostasse dele. Talvez por isso ele fosse tão querido.
Desde ontem choro aqui e ali. No ônibus que me levou em meio à chuva ao aeroporto. No avião. Agora enquanto escrevo estas palavras. E me dá uma agonia. Porque ele não era um cara das lágrimas. Fecho os olhos e lembro dele sorrindo. É sempre assim. Sempre foi assim. E sempre será. Por isso quero tanto que o tempo corra. Para que a lembrança dele deixe de ser algo que me leve às lágrimas.
Até lá, pode deixar seu sorriso no caminho que eu me aperto e consigo passar com a minha dor. Porque me interessa muito mais que você me contamine que o contrário.
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Que texto delicado e forte, ao mesmo tempo! Emocionante, sincero…Também acho que lembrar os momentos engraçados ou falar de quem já foi sem ‘pisar em ovos’ é uma forma de mantê-lo vivo, presente, energia atuante na nossa vida.
Parabéns! Parabéns mesmo pelo texto!
Que texto incrível. Me emocionei no final, fácil.
Deixe que te contaminem, então.
Abraços, e força
incrivel
Que homenagem linda… Nunca fui próxima ao Fefeu, mas me recordo muito dele e dos seus irmãos com a farda do Marista, no intervalo, naquele dia a dia escolar. Acompanhei de longe a passagem de um, e agora de outro. É ruim, mesmo que de longe, acompanhar duas perdas tão prematuras assim… Mas já que esse espaço acaba aproximando pensamentos, distantes e próximos. Quero deixar um abraço de conforto e o meu pesar.
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Simplesmente muito bom. O link desse texto me apareceu no momento certo. Essa semana perdi a minha mãe, é uma dor que não da pra se explicar. O texto fala da alegria do seu pai que animava onde chegava, levantava o astral de todos, adorava a alegria.. minha mãe também era desse mesmo jeito. A saudade dela é enorme e com certeza vai só aumentar.. também sinto, de alguma forma, do mesmo jeito que você falou como se tivesse parte em alguma coisa. Não quero ter que, com a lembrança dela, ficar triste, porque ela, com certeza não gostaria que acontecesse. Esse texto veio parar na minha frente por algum motivo, nisso eu acredito. As coisas de Deus são perfeitas.
Obrigado, mesmo sem nem saber de nada do que acontecia comigo aqui, mas me ajudou bastante esse relato.
abraço Marlos.
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Apyus, que texto lindo, não conhecia sua página, parabéns!
Olha, Fefeu brincava com a novela “Eramos Seis” justamente pq eram 4 irmãos: Caio, Fefeu, e os gêmeos Rafael e Felipe.
Todos estudaram no Marista, e eu tive o prazer de continuar a nossa amizade no curso de jornalismo. Até hj o nosso contato sempre foi frequente. Estou MUITO triste, mas em meio a minha dor, lembro-me de tudo de bom e de engraçado q vivemos juntos, e me pego querendo rir. E eu sei q é isso q Fefeu quer de nós, pq era a alegria q ele pregava. Tenho certeza q ele ficaria “P” da vida com todas essas lágrima q insistem em cair, mas vai passar.
Só temos coisas boas para lembrar…
Um abraço!
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Incrível como a morte une! Quando trouxermos esse sentimento para a vida, encarar a morte será algo bem mais leve.
Já disse um EU TE AMO a algum amigo, HOJE? É o unico dia em que podemos fazer isso…
Obrigado Marlos, em nome da família, ele era assim mesmo, alegre, seu sorriso ficará para sempre na nossa lembrança. Obrigado.
Olá!
Sou Tanatologa, psicologa e musicoterapeuta. Busco aqui e ali ajudar as pessoas especialmente em relação a dor da perda, especificamente a da morte. Gostei muito de sua homenagem. Texto realmente tocante. Me tocou! E tocará muito mais pessoas, por isso estou tendo a liberdade e publicar em meu blog rs! Se por qualquer motivo você não desejar, avise-me. Compreenderei e respeitarei.
Um forte abraço e estamos aqui se precisar.