Avião é derrubado no Brasil com 198 homossexuais a bordo

O reversor abriu fora de hora e Fokker-100 da TAM caiu levando embora 99 vidas. Isso em 96. Dez anos antes de um jato legacy rasgar a barriga de uma aeronave Gol pondo fim à vida de 154 passageiros. Mal sabíamos que, menos de um ano depois, duas centenas de pessoas encontrariam a morte quando outra aeronave TAM não conseguisse parar a tempo em Congonhas. Contudo, a maior tragédia se daria em 2009, com 228 pessoas encontrando a morte no acidente da Air France em alto mar.

Esses são os acidentes aéreos brasileiros que lembro desde que me dou por gente. Quatro no intervalo de 20 anos. Creio que a maioria de vocês deve lembrar também. São tragédias que marcam, deixam o país de luto, ocupam o noticiário por semanas.

O que muitos não sabem é que o equivalente a um boeing lotado de homossexuais morre no Brasil todo ano pelo simples fato de seus passageiros serem… Homossexuais! Com a diferença de que no primeiro parágrafo falo de acidentes, e aqui remeto-me a assassinatos mesmo.

O problema é que a tragédia homossexual é pulverizada em 365 dias por ano, em todos os estados da nação. E você só se deixaria marcar por ela se lotássemos um Fokker-100 de gays e lésbicas e em pleno voo fosse dada a ordem para desligamento das turbinas. Só assim ganharia a capa do jornal, o trending topic e o seu luto.

E tudo isso por quê? Porque há gente no país que não sabe aceitar que somos diferentes uns dos outros. Que há quem goste de homem e mulher e não necessariamente seja respectivamente uma mulher e um homem. Que acha que em algum momento da vida somos capazes de escolher aquilo que passamos a gostar ou deixar de gostar.

Aos poucos vitórias contra essa situação são obtidas. Só em termos o assunto constantemente em pauta já é uma. Não lembro de discussões parecidas quinze anos atrás. E vários direitos homossexuais foram recentemente reconhecidos com a aprovação unânime do STF em torno da união homoafetiva. Mas ainda há muito o que caminhar. Há muita morte a ser evitada. E ela se evita retirando o debate do armário, tocando no assunto na hora do jantar, esclarecendo todos que precisam ser esclarecidos.

O governo, em uma rara atitude louvável e corajosa, distribuiria cartilhas que objetivavam este esclarecimento. Esclarecimento que a longo prazo evitaria mortes para lá de injustas. Mortes causadas por intolerância. Obviamente não seria solução para todas, mas, evitando uma única morte, já teria valido à pena o investimento.

Usei o futuro do pretérito. Porque, justamente por intolerância de uma bancada religiosa, que é justamente aquela que mais diz conjugar o verbo amar, e a covardia de um governo que prefere proteger um corrupto, essas cartilhas tiveram a distribuição proibida. Vidas poderiam ser salvas com aqueles papéis. Uma única vida, que fosse. Mas entre salvar um homossexual, a presidência do país optou por proteger um corrupto, a pedido (ordem) de gente que se diz representar o pensamento tolerante de Deus.

Ao final do ano, outro boeing terá caído. O defeito, apontará a caixa preta, será de novo a mais pura intolerância. Cada esforço, por mínimo que seja, contra esta situação é uma tentativa de colocar mais um paraquedas dentro desta aeronave. Cada paraquedas que conseguimos colocar lá é uma vida que se salva.

O governo Dilma vinha até bem. Mas hoje me deixou de luto.

Um pouco do que ainda consigo falar sobre política

Sem dúvidas, a minha maior experiência profissional se deu quando em 2010 aceitei trabalhar na campanha política acompanhando não só um candidato, mas todo o grupo de indivíduos que o rodeava, seus oponentes e as pessoas que neles votavam. Nos próximos parágrafos resumo um pouco de todas as impressões que tive ao ver de perto como a poucos é dada a oportunidade de se ver.

Primeiramente, é preciso esquecer essa história de que político não trabalha. Eles trabalham e muito. Mais até do que a imensa maioria dos que os tiram por folgados. Contudo, eles se dedicam quase que integralmente ao exercício da política, e não aos propósitos que levam um eleitor a entregar-lhes um voto. Posso arriscar que eles chegam bem perto de serem políticos 24/7/365. São políticos na hora do almoço, nos feriados, com a própria família. E isso, tenha certeza, é bastante desgastante.

Desgastante ao ponto de ter eu a quase certeza de que não são felizes. Sorriem nas fotos, sorriem ao dar a mão, sorriem nos palanques. Mas, quando o telefone dá um tempo, quando os assessores param com as perguntas, seus semblantes não são dos mais animadores. Parecem sempre preocupados, cansados, desconfiados. Não é por menos. Costumam ser traídos por ex-esposas, esposas, filhos, primos, pais. Eu não seria feliz sabendo que não poderia confiar nem em ninguém do meu próprio sangue.

Lidam com a corrupção como quem lida com uma doença sem cura. Ela existe, todos parecem aceitá-la, todos parecem entender que sem ela não dá para jogar o jogo. Quando uma denúncia surge, o sentimento é de compaixão para com o denunciado. Como um soldado que olha o ferimento de bala de um outro soldado caído no chão. Lamenta-se por ter sido atingido, teme-se um dia ser também atingido, mas segue-se em frente deixando-o para trás.

O eleitor indignado com a corrupção? É tido como um indivíduo incapaz de compreender sua realidade. Ingênuo. Imaturo. Uma criança que não aceita o motivo que levou o pai e a mãe a se divorciar. Ela grita, chora, o pai parece entender, até sente sua dor, mas sabe que ela ainda não é capaz de aprender que nada na vida é tão simples assim. Ignora-se o choro e mais uma vez segue-se adiante.

Em Tropa de Elite 2 os roteiristas foram bem felizes ao destacar que o que importa para o político é o voto, e somente o voto. Eu usaria um termo um pouco mais abrangente em seu lugar: poder. Só isso explica o porquê de muitos, já com suas vidas resolvidas, não abandonarem este mundo doentio e curtirem suas aposentadorias. O poder vicia. E quer-se sempre mais. Por ele faz-se tudo: desde beijo em bebês a jantares com assassinos, traficantes, pessoas sem qualquer escrúpulo.

Sabe-se tudo, ninguém quer correr o risco de passar a limpo nada. Sabe-se quem subiu na vida matando, roubando bancos, aplicando golpes, traindo aliados, vendendo crack na pefireria. Não são todos assim. Posso ser injusto dizendo inclusive que se trata da maioria. Digamos, portanto, que se trata “apenas” de uma parcela assustadora.

Mas mesmo a parcela maior dos que vivem esta vida e não se valem destes meios não é de confiança. A qualquer momento podem dar as costas, fingir não saber de algo que sabem, deixar-lhes na mão. Contudo, como dizem, é do jogo.

Reassalte-se que não me refiro exclusivamente aos políticos, mas a todos que vivem de política. No momento que mais me causou asco, vi uma mãe praticamente entregar sua filha de vinte e poucos anos para uma noite com um senhor de seus sessenta e tantos, casado e avô. Visava um futuro emprego numa secretaria qualquer. Todos notaram o que estava se arquitetando. Ele, elas, nós todos. Foi quando tive a certeza de que, fechando-se as urnas, pularia eu fora daquele meio.

Desde então ando mais politicamente sem esperanças, confesso. Não consigo enxergar uma luz. Acho bacana quando muitos se empolgam com greves, discursos como o da Amanda Gurgel, marchas, tudo o mais. Mas sei que basta um pacote com umas dezenas de notas de cem para a mente mais convicta se deixar devorar pelo tal sistema.

Ideologia é dos produtos mais baratos do mercado. E a política a compra justamente para vê-la faltar na prateleira.

Quero muito estar errado. Muito. Mas não consigo crer que estou.