Em 2004 gravei meu primeiro álbum. Custou-me 4 mil reais. Foi todo arcado com parte da herança que meu pai deixara para mim. Sim, era pouca grana. E talvez por isso tenha saído um tanto tosco, todo dentro do que era possível de se fazer em quatro dias de carnaval. Mas curti bastante o resultado. E este álbum deu origem à Experiência Ápyus, que entre trancos e barrancos vive, ao menos em intenções, até hoje.
Dois anos depois, com um bom portfólio de 30 shows em um ano, preparamos um segundo álbum e buscamos o patrocínio de uma lei de incentivo à cultura. Conseguimos. Foram 60 mil reais, dos quais 48 vieram dos cofres públicos. Sim, era muito. Mas buscamos o melhor que pudemos: estúdio, produtor, designer, etc. A intenção era fazer valer cada centavo.
Na mesma época, um primo usava um capacete desses que só protege a nuca quando sofreu um acidente de moto. Caiu de queixo no chão destruindo assim seu maxilar. Sem plano de saúde, precisou de um hospital público. Como infelizmente costuma ocorrer, não havia condições mínimas para a cirurgia ser realizada. A solução seria pagar o procedimento num hospital particular ao custo de 4 mil reais. Custo este que meus tios, sempre vivendo no limite, não possuíam.
Foi quando me vi na incômoda situação de ter 48 mil reais de grana pública na conta de um banco, e um familiar meu buscando 4 mil reais para arcar com a reconstrução de seu maxilar uma vez que o Estado não tinha condições de ajudá-lo.
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Expus esta situação ano passado quando um grupo de agentes culturais se preparavam para cobrar posturas dos candidatos ao governo do Rio Grande do Norte. E perguntei a todos como queriam eles que o Estado reservasse verba para a cultura num país que possui saúde e educação ainda tão deficientes.
Fui chamado de tudo: de infantil a idiota. Passando, obviamente, pelo reacionário e polemista barato.
Os poucos que tentaram argumentar não me convenceram: falaram que o erro era da má administração da saúde e da educação, que era uma migalha o que era reservado para a cultura, ou que simplesmente estava na constituição e por isso deveria assim ser, o que para mim teve um valor idêntico ao de um “porque sim”.
Notando os ânimos exaltados, prometi que um dia, com mais tempo, retomaria o tema. E cá estou eu hoje.
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Só aceito o investimento público em cultura diante de duas condições: o governo já reservou verba o suficiente para resolver todos os problemas relacionados à saúde, educação, segurança e infra-estrutura (o que está muito longe de ser o caso brasileiro), ou se este investimento respeita o próprio significado do termo “investimento”, ou seja, quando se planta um tanto para se colher, no mínimo, um tanto mais um.
O que quero dizer com isso: aceito que uma prefeitura reserve alguns tostões para bancar um evento que gerará empregos, atrairá turistas, fará a economia girar, que trará ao seu município algum lucro, lucro este que pode ser utilizado, vejam só, em educação, saúde, segurança e infra-estrutura.
Mais que isso: aceito que um governo banque um professor de música/teatro/artes plásticas em cada escola pública num plano a longo prazo que visa ver florescer naturalmente talentos locais em uma ou duas décadas. Isso pode, em uma ou duas décadas, transformar a região em um ambiente rico artisticamente (note que não falo “culturalmente”) e com isso atrair, em uma ou duas décadas, turistas, investidores privados, mídia, enfim… Interesse alheio.
Contudo, sabe o que mais justifica a atual aplicação de verba pública em cultura? A propaganda política. Pede-se algumas justificativas na inscrição de certos projetos, e aí fala-se muito em resgate, em geração de empregos temporários, em enriquecimento cultural (?!), mas o que realmente é cobrado depois é a mídia espontânea obtida e a ordem das logomarcas no panfleto.
Resultado: os políticos em questão, com alguns trocados (basta comparar o que ganha um músico e um engenheiro ao final de cada gestão), conseguem controlar a opinião de uma classe que costuma ter a confiança das massas para tudo aquilo que dizem. E lá se vai mais um formador de opinião.
Exemplo: Carlos Eduardo foi um prefeito que bancou muita “cultura” em Natal. De encontro literário a shows musicais, teve grana de sua gestão em um pouco de tudo. Quanto a Micarla, um de seus primeiros “feitos” foi não conseguir dar continuidade a esta política. Resultado: a classe artística em peso pediu voto para Carlos Eduardo enquanto linxava publicamente a moral da atual prefeita. Micarla não é santa e nem venha você, analfabeto funcional, dizer aqui que a estou defendendo. Contudo, custo a acreditar que a coisa piorou tanto assim. Não porque ainda esteja bem. Mas porque custo a acreditar que em algum momento foi tão boa. Beleza, antes tinha circo. Mas circo reconstrói maxilar?
E aí que, antes de se despedir, a então governadora Wilma de Faria torrou o que tinha nos cofres públicos fazendo propaganda de si mesma com infindas e caríssimas inserções na TV, sem falar de “inaugurações” e mais “inaugurações” coberta em pe$o por quase todos os veículos locais, tudo isso visando uma vaga no senado, independente de se em dezembro sobraria algum trocado para pagar seus servidores.
Não sobrou trocado, o pagamento de dezembro atrasou. Mas ninguém fez um funk para ela.
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Meu primo passou um mês no hospital se alimentando exclusivamente de líquidos pois não tinha maxilar para mastigar nada. Conseguiu verba para a cirurgia graças a esforços da Maçonaria que em Mossoró ainda tem alguma moral.
Nem Wilma ou Carlos Eduardo (que recebeu meu voto) se elegeram. Não estranharei se Micarla se reeleger. Mas aí você, caro leitor, acabou de rir da minha cara.
Em 2009 gravei um novo álbum que custou 3 mil reais bancado por um patrocinador privado (quer queira ou não, o projeto anterior ensinou os caminhos das pedras e aprendemos como minimizar ao máximo os custos). Mesmo assim fiz questão de destacar as mesmas logomarcas do projeto que tinha a lei de incentivo à cultura. Sei que soa piegas, viadagem pura, mas foi uma forma que encontrei de seguir agradecendo aos impostos alheios que bancaram o trabalho anterior.
Sou artista mesmo não vivendo de arte. Sou até mais artista que muitos dos que vivem de arte, porque sei que muitos deles estão nessa pelas drogas, pelo sexo, pela vida boêmia. Já eu, sempre que subo num palco, subo pela música. Mesmo quando estive em bandas mais comerciais, respeitava cada acorde que tirava do meu instrumento.
Mas sei que há coisas mais importantes nesta vida que a arte que eu tanto amo. E que ela pode ficar para depois se agora há mais gente necessitada dos impostos que pago. E aí que posso consumi-la em minhas horas de lazer, com a grana que sobrou dos impostos que paguei.
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Sou contra a forma como se gasta com cultural no Brasil. E gostaria de um mínimo de respeito por esta opinião. Muito me doeu receber aquela quantidade e qualidade de adjetivos quando apenas propunha um debate. E muito me decepcionou ver como uma boa parte da classe artística está despreparada para se defender e parte logo para o ataque.
Sou inclusive contra a forma como se entende cultura por aqui, como se fosse algo que alguém pudesse adquirir ou ter mais que outro. Como se fosse algo que se pudesse estimular. Entendo que cultura só é cultura quando se é espontâneo. Tem que vir naturalmente. Arte são outros quinhentos. E arte é supérfluo.
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Anos atrás me prometi que nunca mais tocaria um projeto pessoal meu utilizando recursos públicos. Sigo cumprindo a promessa. E torço para que assim siga.
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Por fim, jamais esquecerei que a gente quer comida, diversão e arte.
Mas nessa ordem.