Avião é derrubado no Brasil com 198 homossexuais a bordo

O reversor abriu fora de hora e Fokker-100 da TAM caiu levando embora 99 vidas. Isso em 96. Dez anos antes de um jato legacy rasgar a barriga de uma aeronave Gol pondo fim à vida de 154 passageiros. Mal sabíamos que, menos de um ano depois, duas centenas de pessoas encontrariam a morte quando outra aeronave TAM não conseguisse parar a tempo em Congonhas. Contudo, a maior tragédia se daria em 2009, com 228 pessoas encontrando a morte no acidente da Air France em alto mar.

Esses são os acidentes aéreos brasileiros que lembro desde que me dou por gente. Quatro no intervalo de 20 anos. Creio que a maioria de vocês deve lembrar também. São tragédias que marcam, deixam o país de luto, ocupam o noticiário por semanas.

O que muitos não sabem é que o equivalente a um boeing lotado de homossexuais morre no Brasil todo ano pelo simples fato de seus passageiros serem… Homossexuais! Com a diferença de que no primeiro parágrafo falo de acidentes, e aqui remeto-me a assassinatos mesmo.

O problema é que a tragédia homossexual é pulverizada em 365 dias por ano, em todos os estados da nação. E você só se deixaria marcar por ela se lotássemos um Fokker-100 de gays e lésbicas e em pleno voo fosse dada a ordem para desligamento das turbinas. Só assim ganharia a capa do jornal, o trending topic e o seu luto.

E tudo isso por quê? Porque há gente no país que não sabe aceitar que somos diferentes uns dos outros. Que há quem goste de homem e mulher e não necessariamente seja respectivamente uma mulher e um homem. Que acha que em algum momento da vida somos capazes de escolher aquilo que passamos a gostar ou deixar de gostar.

Aos poucos vitórias contra essa situação são obtidas. Só em termos o assunto constantemente em pauta já é uma. Não lembro de discussões parecidas quinze anos atrás. E vários direitos homossexuais foram recentemente reconhecidos com a aprovação unânime do STF em torno da união homoafetiva. Mas ainda há muito o que caminhar. Há muita morte a ser evitada. E ela se evita retirando o debate do armário, tocando no assunto na hora do jantar, esclarecendo todos que precisam ser esclarecidos.

O governo, em uma rara atitude louvável e corajosa, distribuiria cartilhas que objetivavam este esclarecimento. Esclarecimento que a longo prazo evitaria mortes para lá de injustas. Mortes causadas por intolerância. Obviamente não seria solução para todas, mas, evitando uma única morte, já teria valido à pena o investimento.

Usei o futuro do pretérito. Porque, justamente por intolerância de uma bancada religiosa, que é justamente aquela que mais diz conjugar o verbo amar, e a covardia de um governo que prefere proteger um corrupto, essas cartilhas tiveram a distribuição proibida. Vidas poderiam ser salvas com aqueles papéis. Uma única vida, que fosse. Mas entre salvar um homossexual, a presidência do país optou por proteger um corrupto, a pedido (ordem) de gente que se diz representar o pensamento tolerante de Deus.

Ao final do ano, outro boeing terá caído. O defeito, apontará a caixa preta, será de novo a mais pura intolerância. Cada esforço, por mínimo que seja, contra esta situação é uma tentativa de colocar mais um paraquedas dentro desta aeronave. Cada paraquedas que conseguimos colocar lá é uma vida que se salva.

O governo Dilma vinha até bem. Mas hoje me deixou de luto.

Um pouco do que ainda consigo falar sobre política

Sem dúvidas, a minha maior experiência profissional se deu quando em 2010 aceitei trabalhar na campanha política acompanhando não só um candidato, mas todo o grupo de indivíduos que o rodeava, seus oponentes e as pessoas que neles votavam. Nos próximos parágrafos resumo um pouco de todas as impressões que tive ao ver de perto como a poucos é dada a oportunidade de se ver.

Primeiramente, é preciso esquecer essa história de que político não trabalha. Eles trabalham e muito. Mais até do que a imensa maioria dos que os tiram por folgados. Contudo, eles se dedicam quase que integralmente ao exercício da política, e não aos propósitos que levam um eleitor a entregar-lhes um voto. Posso arriscar que eles chegam bem perto de serem políticos 24/7/365. São políticos na hora do almoço, nos feriados, com a própria família. E isso, tenha certeza, é bastante desgastante.

Desgastante ao ponto de ter eu a quase certeza de que não são felizes. Sorriem nas fotos, sorriem ao dar a mão, sorriem nos palanques. Mas, quando o telefone dá um tempo, quando os assessores param com as perguntas, seus semblantes não são dos mais animadores. Parecem sempre preocupados, cansados, desconfiados. Não é por menos. Costumam ser traídos por ex-esposas, esposas, filhos, primos, pais. Eu não seria feliz sabendo que não poderia confiar nem em ninguém do meu próprio sangue.

Lidam com a corrupção como quem lida com uma doença sem cura. Ela existe, todos parecem aceitá-la, todos parecem entender que sem ela não dá para jogar o jogo. Quando uma denúncia surge, o sentimento é de compaixão para com o denunciado. Como um soldado que olha o ferimento de bala de um outro soldado caído no chão. Lamenta-se por ter sido atingido, teme-se um dia ser também atingido, mas segue-se em frente deixando-o para trás.

O eleitor indignado com a corrupção? É tido como um indivíduo incapaz de compreender sua realidade. Ingênuo. Imaturo. Uma criança que não aceita o motivo que levou o pai e a mãe a se divorciar. Ela grita, chora, o pai parece entender, até sente sua dor, mas sabe que ela ainda não é capaz de aprender que nada na vida é tão simples assim. Ignora-se o choro e mais uma vez segue-se adiante.

Em Tropa de Elite 2 os roteiristas foram bem felizes ao destacar que o que importa para o político é o voto, e somente o voto. Eu usaria um termo um pouco mais abrangente em seu lugar: poder. Só isso explica o porquê de muitos, já com suas vidas resolvidas, não abandonarem este mundo doentio e curtirem suas aposentadorias. O poder vicia. E quer-se sempre mais. Por ele faz-se tudo: desde beijo em bebês a jantares com assassinos, traficantes, pessoas sem qualquer escrúpulo.

Sabe-se tudo, ninguém quer correr o risco de passar a limpo nada. Sabe-se quem subiu na vida matando, roubando bancos, aplicando golpes, traindo aliados, vendendo crack na pefireria. Não são todos assim. Posso ser injusto dizendo inclusive que se trata da maioria. Digamos, portanto, que se trata “apenas” de uma parcela assustadora.

Mas mesmo a parcela maior dos que vivem esta vida e não se valem destes meios não é de confiança. A qualquer momento podem dar as costas, fingir não saber de algo que sabem, deixar-lhes na mão. Contudo, como dizem, é do jogo.

Reassalte-se que não me refiro exclusivamente aos políticos, mas a todos que vivem de política. No momento que mais me causou asco, vi uma mãe praticamente entregar sua filha de vinte e poucos anos para uma noite com um senhor de seus sessenta e tantos, casado e avô. Visava um futuro emprego numa secretaria qualquer. Todos notaram o que estava se arquitetando. Ele, elas, nós todos. Foi quando tive a certeza de que, fechando-se as urnas, pularia eu fora daquele meio.

Desde então ando mais politicamente sem esperanças, confesso. Não consigo enxergar uma luz. Acho bacana quando muitos se empolgam com greves, discursos como o da Amanda Gurgel, marchas, tudo o mais. Mas sei que basta um pacote com umas dezenas de notas de cem para a mente mais convicta se deixar devorar pelo tal sistema.

Ideologia é dos produtos mais baratos do mercado. E a política a compra justamente para vê-la faltar na prateleira.

Quero muito estar errado. Muito. Mas não consigo crer que estou.

A lição que aprendi com Yuno

Um dia Yuno descobriu que construiriam prédios ao lado do maior cartão postal de Natal, cidade onde residi em meus últimos 23 anos. E mandou um email indignado para uma lista que contemplava uma porção de formadores de opinião locais. Reclamava do absurdo daquela obra, que lutaria contra aquilo a todo custo. Na ocasião, alguns concordaram e engrossaram o coro. Eu fiquei do lado de uma minoria que tentou convencê-lo que o projeto nada tinha de ilegal, que estava de acordo com o plano diretor do município.

Com o avançar das trocas de email, os ânimos se exaltaram. Lembro que desisti do debate com uma atitude escrota. Em minhas últimas palavras, disse que nenhum protesto daqueles sairia daquele mundinho virtual porque não acreditava na iniciativa dos que se indignavam. Contudo, deixei meus votos de que todos os envolvidos dessem seu máximo para que queimassem minha língua.

Para a felicidade de todos, inclusive a minha, queimaram. Convocaram a imprensa, panfletaram no bairro, fizeram seu barulho, conseguiram ser ouvidos pelo prefeito. Não acompanhei de perto a luta, mas sei que atingiram o objetivo. Do contrário, já teríamos espigões fazendo sombra no Morro do Careca.

O principal ponto de Yuno era que se a lei não proibia, o problema maior era a própria lei. Na época, com uma visão mais quadrada, tive dificuldades em concordar. Hoje, penso que ele estava certíssimo. Não sou especialista no assunto, mas entendo que estamos falando de sistemas desenvolvidos por seres humanos. E seres humanos falham. Ou seja: sempre haverá brechas legais necessitando de reparos. Era o caso daquele plano diretor. É o caso das leis de incentivo à cultura.

Penso que em muito elas podem melhorar. No Rio Grande do Norte, por exemplo, poderia começar impedindo que o próprio governo se beneficiasse dela consumindo para fins próprios boa parte da verba a elas reservada. Mas, principalmente, se polícia é para quem precisa de polícia, lei de incentivo a cultura, penso, é para quem precisa de incentivo. E aqui chego ao ponto: que incentivo precisa um artista do tamanho de uma Ana Carolina, Ivete Sangalo ou Maria Bethânia?

Não há nada de errado com o recém aprovado projeto de videolog de poesia da cantora baiana. E esse é o maior erro. O milhão e quase meio que ela pode (mas nem deve, creio, depois de toda esta polêmica) arrecadar seria muito mais útil a uma dezena de outros projetos de médio porte (como festivais literários que geram empregos diretos e indiretos) ou uma centena de projetos de pequeno porte (com esta grana, seria possível arcar com livros de pelo menos cem poetas, por exemplo).

Não é birra de esquerdista, de direitista, de fã da Bethânia (eu sou um) ou de quem a odeia. Trata-se apenas de uma luta por um melhor trato com o dinheiro público. Principalmente da menor de todas as pastas, a da cultura.

Isso está errado. Isso preciso ser corrigido. Que todo este debate sirva para ajustes.

Quase tudo que tinha para dizer sobre investimento público em cultura

Em 2004 gravei meu primeiro álbum. Custou-me 4 mil reais. Foi todo arcado com parte da herança que meu pai deixara para mim. Sim, era pouca grana. E talvez por isso tenha saído um tanto tosco, todo dentro do que era possível de se fazer em quatro dias de carnaval. Mas curti bastante o resultado. E este álbum deu origem à Experiência Ápyus, que entre trancos e barrancos vive, ao menos em intenções, até hoje.

Dois anos depois, com um bom portfólio de 30 shows em um ano, preparamos um segundo álbum e buscamos o patrocínio de uma lei de incentivo à cultura. Conseguimos. Foram 60 mil reais, dos quais 48 vieram dos cofres públicos. Sim, era muito. Mas buscamos o melhor que pudemos: estúdio, produtor, designer, etc. A intenção era fazer valer cada centavo.

Na mesma época, um primo usava um capacete desses que só protege a nuca quando sofreu um acidente de moto. Caiu de queixo no chão destruindo assim seu maxilar. Sem plano de saúde, precisou de um hospital público. Como infelizmente costuma ocorrer, não havia condições mínimas para a cirurgia ser realizada. A solução seria pagar o procedimento num hospital particular ao custo de 4 mil reais. Custo este que meus tios, sempre vivendo no limite, não possuíam.

Foi quando me vi na incômoda situação de ter 48 mil reais de grana pública na conta de um banco, e um familiar meu buscando 4 mil reais para arcar com a reconstrução de seu maxilar uma vez que o Estado não tinha condições de ajudá-lo.

* * *

Expus esta situação ano passado quando um grupo de agentes culturais se preparavam para cobrar posturas dos candidatos ao governo do Rio Grande do Norte. E perguntei a todos como queriam eles que o Estado reservasse verba para a cultura num país que possui saúde e educação ainda tão deficientes.

Fui chamado de tudo: de infantil a idiota. Passando, obviamente, pelo reacionário e polemista barato.

Os poucos que tentaram argumentar não me convenceram: falaram que o erro era da má administração da saúde e da educação, que era uma migalha o que era reservado para a cultura, ou que simplesmente estava na constituição e por isso deveria assim ser, o que para mim teve um valor idêntico ao de um “porque sim”.

Notando os ânimos exaltados, prometi que um dia, com mais tempo, retomaria o tema. E cá estou eu hoje.

* * *

Só aceito o investimento público em cultura diante de duas condições: o governo já reservou verba o suficiente para resolver todos os problemas relacionados à saúde, educação, segurança e infra-estrutura (o que está muito longe de ser o caso brasileiro), ou se este investimento respeita o próprio significado do termo “investimento”, ou seja, quando se planta um tanto para se colher, no mínimo, um tanto mais um.

O que quero dizer com isso: aceito que uma prefeitura reserve alguns tostões para bancar um evento que gerará empregos, atrairá turistas, fará a economia girar, que trará ao seu município algum lucro, lucro este que pode ser utilizado, vejam só, em educação, saúde, segurança e infra-estrutura.

Mais que isso: aceito que um governo banque um professor de música/teatro/artes plásticas em cada escola pública num plano a longo prazo que visa ver florescer naturalmente talentos locais em uma ou duas décadas. Isso pode, em uma ou duas décadas, transformar a região em um ambiente rico artisticamente (note que não falo “culturalmente”) e com isso atrair, em uma ou duas décadas, turistas, investidores privados, mídia, enfim… Interesse alheio.

Contudo, sabe o que mais justifica a atual aplicação de verba pública em cultura? A propaganda política. Pede-se algumas justificativas na inscrição de certos projetos, e aí fala-se muito em resgate, em geração de empregos temporários, em enriquecimento cultural (?!), mas o que realmente é cobrado depois é a mídia espontânea obtida e a ordem das logomarcas no panfleto.

Resultado: os políticos em questão, com alguns trocados (basta comparar o que ganha um músico e um engenheiro ao final de cada gestão), conseguem controlar a opinião de uma classe que costuma ter a confiança das massas para tudo aquilo que dizem. E lá se vai mais um formador de opinião.

Exemplo: Carlos Eduardo foi um prefeito que bancou muita “cultura” em Natal. De encontro literário a shows musicais, teve grana de sua gestão em um pouco de tudo. Quanto a Micarla, um de seus primeiros “feitos” foi não conseguir dar continuidade a esta política. Resultado: a classe artística em peso pediu voto para Carlos Eduardo enquanto linxava publicamente a moral da atual prefeita. Micarla não é santa e nem venha você, analfabeto funcional, dizer aqui que a estou defendendo. Contudo, custo a acreditar que a coisa piorou tanto assim. Não porque ainda esteja bem. Mas porque custo a acreditar que em algum momento foi tão boa. Beleza, antes tinha circo. Mas circo reconstrói maxilar?

E aí que, antes de se despedir, a então governadora Wilma de Faria torrou o que tinha nos cofres públicos fazendo propaganda de si mesma com infindas e caríssimas inserções na TV, sem falar de “inaugurações” e mais “inaugurações” coberta em pe$o por quase todos os veículos locais, tudo isso visando uma vaga no senado, independente de se em dezembro sobraria algum trocado para pagar seus servidores.

Não sobrou trocado, o pagamento de dezembro atrasou. Mas ninguém fez um funk para ela.

* * *

Meu primo passou um mês no hospital se alimentando exclusivamente de líquidos pois não tinha maxilar para mastigar nada. Conseguiu verba para a cirurgia graças a esforços da Maçonaria que em Mossoró ainda tem alguma moral.

Nem Wilma ou Carlos Eduardo (que recebeu meu voto) se elegeram. Não estranharei se Micarla se reeleger. Mas aí você, caro leitor, acabou de rir da minha cara.

Em 2009 gravei um novo álbum que custou 3 mil reais bancado por um patrocinador privado (quer queira ou não, o projeto anterior ensinou os caminhos das pedras e aprendemos como minimizar ao máximo os custos). Mesmo assim fiz questão de destacar as mesmas logomarcas do projeto que tinha a lei de incentivo à cultura. Sei que soa piegas, viadagem pura, mas foi uma forma que encontrei de seguir agradecendo aos impostos alheios que bancaram o trabalho anterior.

Sou artista mesmo não vivendo de arte. Sou até mais artista que muitos dos que vivem de arte, porque sei que muitos deles estão nessa pelas drogas, pelo sexo, pela vida boêmia. Já eu, sempre que subo num palco, subo pela música. Mesmo quando estive em bandas mais comerciais, respeitava cada acorde que tirava do meu instrumento.

Mas sei que há coisas mais importantes nesta vida que a arte que eu tanto amo. E que ela pode ficar para depois se agora há mais gente necessitada dos impostos que pago. E aí que posso consumi-la em minhas horas de lazer, com a grana que sobrou dos impostos que paguei.

* * *

Sou contra a forma como se gasta com cultural no Brasil. E gostaria de um mínimo de respeito por esta opinião. Muito me doeu receber aquela quantidade e qualidade de adjetivos quando apenas propunha um debate. E muito me decepcionou ver como uma boa parte da classe artística está despreparada para se defender e parte logo para o ataque.

Sou inclusive contra a forma como se entende cultura por aqui, como se fosse algo que alguém pudesse adquirir ou ter mais que outro. Como se fosse algo que se pudesse estimular. Entendo que cultura só é cultura quando se é espontâneo. Tem que vir naturalmente. Arte são outros quinhentos. E arte é supérfluo.

* * *

Anos atrás me prometi que nunca mais tocaria um projeto pessoal meu utilizando recursos públicos. Sigo cumprindo a promessa. E torço para que assim siga.

* * *

Por fim, jamais esquecerei que a gente quer comida, diversão e arte.

Mas nessa ordem.

Amor nos tempos do Wii

Ele disse que estava tentando viver só para ele, que saíra havia pouco tempo de um relacionamento complicado, que estava pela primeira vez na vida curtindo seus momentos sozinhos e queria aproveitá-los ao máximo para colocar os estudos em dia no tempo livre que seu novo trabalho lhe disponibilizava.

Ela disse que estava “numa vibe semelhante”. Que achava uma bobagem se casar antes dos trinta, ou até mesmo ter um relacionamento muito sério. Porque sabia que a liberdade não era eterna e não há época melhor para aproveitá-la senão aos vinte e poucos.

Ele não só concordou, como disse que possuía um lema que dizia que uma pessoa só deveria se entregar ao amor pleno após conquistar 24 territórios ou 3 continentes à sua escolha. E ainda disse, com um olhar canastrão, que ela poderia entender a metáfora como bem quisesse.

Ela disse que apesar da grosseria subentendia, o perdoava pois adorava jogar War, justamente pela quantidade de relacionamentos que viu se despedaçar no lançar dos dados sempre que um namorado tinha como objetivo destruir os exércitos da namorada e ela, a namorada, só o percebia depois de xingá-lo de filho da puta na frente dos cunhados que até então gargalhavam de sua cara enfezada.

Ele perguntou se ela também estava naquele veraneio em Pitangui porque jurava ter vivido uma situação idêntica.

Ela disse que nunca veraneou pois seus amigos, sempre comprometidos, só a arrastavam para programas de casais, para conversar sobre concursos que pretendiam fazer, pratos caros que haviam comido, e Wii’s que pretendiam comprar quando finalmente fossem chamados para trabalhar num cargo qualquer de um tribunal qualquer.

Ele disse que sempre odiou esta programação pretensamente adulta que alguns amigos dele também tinham onde o objetivo parecia ser exclusivamente engordar e empobrecer, não necessariamente nesta ordem.

Ela, empolgada, concordou dizendo possuir certeza que estes jovens casais só se empolgavam tanto com comida porque a vida sexual deles virara tédio puro.

Ele não só concordou, como teorizou que isto ocorria porque o sexo para casais assim se tornara algo que poderia ser deixado para depois, diferentemente do que ocorre com os solteiros, que precisavam aproveitar as três horas do motel como se não houvesse amanhã.

Ela nem disse nada. Apenas olhou para o relógio.

Foi quando, após o silêncio dela, perguntou ele quanto tempo faltava para o amanhã chegar.

Ela respondeu que muito pouco.

Ele pediu a conta.

Eles correram para o motel mais próximo.

Seis meses depois compraram um Wii.

Os vôos do bacurau – Bastidores da campanha de Henrique Alves a deputado federal

Já era madrugada quando a equipe dentro do veículo fora avisada que dormiria na capital mesmo estando ainda a 300km de distância. “Como a blindagem do carro ficou pronta a tempo, só teremos problemas na estrada se vierem com bazucas”, informou Aluizio Dultra, coordenador geral da 11ª campanha para deputado federal a qual concorria Henrique Eduardo Alves, então líder do PMDB na Câmara e herdeiro maior do voto bacurau (ou como são conhecidos no Rio Grande do Norte todos aqueles que votavam em seu falecido pai, o ex-governador/senador/ministro Aluísio Alves).

Toda precaução era sim para tanto. Quatro anos antes, na mesma região e em horário semelhante, suas vidas só foram salvas graças à habilidade de Paulo, motorista do candidato por quase três décadas, ao volante. “Quando os bandidos conseguiram colocar o carro ao lado do nosso, aproveitei que não havia acostamento e os joguei para fora da pista”, relatava enquanto tentava recuperar no acelerador mais um dos infindos atrasos que ocorriam entre um comício e outro. “Eu já cansei de reclamar ao deputado que o discurso dele está longo demais.”

De fato estava. Mas só porque havia muito a se dizer. Sempre que subia num palanque, Henrique se via na obrigação de revisitar 40 anos de vida pública e ainda justificar o pedido de quatro outros votos além do próprio. Só abria mão do segundo para senador, o que era prática comum entre seus aliados (uma vez que este sexto pedido poderia implicar na eleição de um adversário de Garibaldi Alves Filho, ex-presidente do Senado, ex-governador e – típico da política nacional – seu primo).

Durante os três meses de primeiro turno, Henrique sintetizou em seu trabalho tudo aquilo por que é conhecido o PMDB, partido que sempre o acolheu. Calejado de outros outubros, sabia ser deveras comum no amanhã precisar de alguém que se critica hoje. Daí que evitava ao máximo adjetivar negativamente adversários, permitindo-se inclusive o elogio a eles. “Eu não quero tomar voto de ninguém!”, bradava em cada pequeno município que visitava.

Sua maior dificuldade era dialogar com a lógica partidária nacional, que muda de município a município, às vezes de bairro a bairro. De tal forma que inúmeros cálculos eram efetuados antes de se empunhar qualquer microfone para se ter a certeza dos nomes que poderiam ser citados sem que isto representasse prejuízo nas urnas. O cúmulo ocorreu em Acari, quando Henrique se viu obrigado a apoiar o voto em Rosalba Ciarlini, candidata do Democratas ao governo do RN, graças a um fogo amigo originado de membros da coligação que pedia votos a Iberê Ferreira de Souza, candidato que tinha seu apoio (declarado ou não) em todos os outros 166 municípios do estado.

A campanha nos tempos do Twitter

Na semana que antecedia a votação o velocímetro foi conferido: foram rodados 25 mil Km durante o período eleitoral, o equivalente a uma volta completa pelas fronteiras do Brasil.  “Em 86 rodamos mais de 80 mil pedindo voto para Geraldo Melo”, relembrava Paulo, constatando que a tecnologia diminuiu bastante certas distâncias. “Antigamente nos comunicávamos por bilhetes, hoje temos o celular”, comentou enquanto era interrompido pelo toque de um dos nove aparelhos que seguiam viagem com a equipe.

O próprio Henrique Alves é um viciado em SMS, sempre com ambas as mão tomadas por aparelhos, recebendo e passando instruções para todo o país. “Mas não quero me viciar em Twitter como vocês”, disse, fazendo referência aos seus assessores que usavam e abusavam de seus planos de dados sempre que alguma torre de celular próxima provia um sinal de qualidade mínima para navegação na estrada.

Partiu de Richardson Pessoa, uma espécie de “assessor faz-tudo” do candidato, a idéia de transmitir via webcam os comícios realizados pela coligação no interior do Rio Grande do Norte. Tecnicamente não seria fácil graças às limitadas conexões disponibilizadas nos municípios com menos de 200 mil habitantes. O áudio era ruidoso e a imagem mal passava de alguns slides atualizados a cada meia dúzia de segundos. Mas, com apenas um netbook, uma conexão 3G e uma webcam, foi possível reverberar por todo o planeta tudo que era prometido pelo candidato no mais longínquo interior do país. E se a audiência se mostrava baixa, era ao menos qualificada. Tanto que se tornaram comuns nas manhãs seguintes ligações de veículos nacionais que se pautavam pelo que era transmitido na web. “Se eu soubesse que você estaria me vendo, teria preparado um discurso melhor”, disse Henrique ao agradecer por telefone a pauta trabalhada por um dos maiores colunista de política do país.

A família nos tempos da campanha

Toda tecnologia disponibilizada servia não apenas como rede de informações, mas para aproximar corações que se vêem obrigados a aceitar a correria na busca do voto. Quando os assessores davam um tempo em suas infindas perguntas e solicitações, eram discados os números dos filhos e da sua namorada, Laurita Arruda, jornalista, advogada e blogueira que cobre a política local. Fosse para resolver problemas comuns a qualquer família, casa ou escola, fosse apenas para matar saudades. No caso de Henrique, todas as prioridades eram colocadas de lado para comemorar junto ao seu filho mais novo sempre que um gol do Vasco da Gama era marcado. Vascaíno dos mais doentes, parecia torcer mais por um campeonato do time carioca que por mais uma renovação do seu mandato (tido como “jogo ganho” por todos aqueles que para ele trabalhavam). “E ao que tudo indica, Romário vai ser meu companheiro de trabalho lá em Brasília”, dizia antes de ter a confirmação que o seu antigo ídolo no futebol elerger-se-ia deputado federal pelo Rio de Janeiro no 03 de outubro que estava por chegar. “Isso de vez em quando falar de futebol no palanque ainda vai tirar voto dele”, temia Paulo, ciente da pluralidade do gosto futebolístico dos potiguares.

Mas não era para tanto. No abrir das urnas, praticamente tudo saiu como esperado. Desde o recorde de votação para a Fátima Bezerra, candidata petista, ao segundo lugar para João Maia, candidato do PR e integrante da coligação que se somava ao PV e PMDB. Henrique, com seus 191.110 votos conseguiu trazer consigo o vereador Paulo Wagner, candidato verde que obteve menos votos que Rogério Marinho (PSDB) e Adenúbio Melo (PSB) graças à questionável lei eleitoral. “Só não esperava mesmo a ida de Dilma para o segundo turno, mas lutaremos o que for possível por sua vitória”, respondia o bacurau não só aos vários telefonemas de todo o Brasil que chegavam buscando sua visão da eleição, mas também em voz alta como quem conversa consigo mesmo. “Mas, deputado, este segundo turno para o PT será ótimo para a gente pois eles virão mais fracos quando a eleição para a presidência da câmara chegar”, alertou um dos muitos assessores que com ele acompanhavam a apuração nas instalações da Intertv Cabugi, afiliada da Rede Globo e de propriedade de sua família. “Eu sei, pô, mas não dá para falar isso senão estes blogueiros publicam”, censurou-o o peemedebista apontando para sua namorada, que atualizava o Twitter freneticamente.

Jesus Gay

- Jesus Gay.
- Jesus Gay?!
- Jesus Gay.

Aquele não era o melhor ambiente para termos aquele diálogo tão, digamos, profano. Colégio Nossa Senhora das Neves. Espécie de filial de uma rede de escolas católicas. Não lembro bem a história mas, aparentemente, nascia na Áustria as “mães” daquela congregação. Frankboy e Negão apenas escutavam. Quanto a Eider, respondia à minha incredulidade?

- O outro nome que você pensou foi Jesus Gay?!
- Jesus Gay.
- Não sei…
- É porque é assim… Você pensa em Jesus. Aí pensa naquilo que mais vai de encontro ao que Jesus prega. E nada melhor para representar isso que o universo gay. Daí o nome: Jesus Gay.

Havia pouco tempo, decidira eu não mais acreditar em Jesus. Mas hoje sei que àquela época ainda acreditava. Pois foi a ele que me dirigi quando mentalmente disse olhando aos céus: “não mais acreditarei em você”. Ridículo, eu sei. Mas ocorreu. E foi muito importante para tudo que eu viria defender tempos depois.

Sei que, sentado na escadaria do auditório onde costumávamos ensaiar, ouvi com imenso desconforto aquele nome.

- Não é bem assim. Além do mais, com um nome desses jamais conseguiremos tocar no festival de artes daqui.
- Então terá de ser o outro nome mesmo.
- Tem certeza que vocês não preferem “Mordake”?

Frankboy saiu do silêncio:

- “Morda aqui”?! Esse “homi” é fresco.
- Mas a história é massa! Um homem com duas faces, sendo uma normal e outra na nuca! A da nuca sempre triste, atormentando-o, causando pesadelos, chorando. E uma história real! Pesquisei na internet. Ele realmente existiu.

Sim. Em 1998 já tínhamos acesso à internet. E sim, ainda acreditávamos nela.

- Mordake é péssimo! Parece nome de banda de metal. Essa história é bizarra. Não quero uma história tão mazelenta resumindo o som que fazemos.
- Ele está certo, Marlos. Mordake não é legal. Ninguém vai pronunciar isso direito. Você mesmo não sabe se a pronuncia é essa.

Pior que eles realmente estavam certos.

- Então é isso? Está todo mundo de acordo?
- Só falta você concordar.
- Bom… Se sou voto vencido, então é isso. Brigitte Beréu venceu.

Era uma “homenagem” a Brigitte, um travesti que fora assassinado e alguns anos antes ganhara não só capa dos jornais locais, mas música de uma banda que muito nos influenciava, o General Junkie. E também pretendia soar como um trocadilho com Brigitte Bardot, ícone da beleza da segunda metade do século XX que talvez só não fora mais desejada que Marilyn Monroe. Unir opostos parecia ser uma obsessão de Eider, o pai da idéia. Mesclava ele com estas duas palavras aquilo que a sociedade mais admira, a beleza de uma mulher, e mais ojeriza, a prostituição homossexual.

Mas algumas questões nunca me foram respondidas: que problema havia de o nome que sugeri soar gay se as outras opções eram Brigitte Beréu e Jesus Gay?! Aliás, que problema havia em soar gay? Ou ainda: a história de Brigitte não era igualmente “mazelenta”?

Incoerências que seriam constantes em nossa breve história.

Resumo de Lost

Este texto é para quem pretende nunca assistir à série. Trago nele um resumo da história sob meus pontos de vista. Precisa nem dizer que é puro spoiler, né?

As seis temporadas dão a entender que a ilha comporta o que seria a origem da vida. Uma fonte de onde emana uma luz que, se apagada, acabará com a nossa existência. Esta fonte precisa de guardiões que a protejam. A guardiã mais antiga mostrada na história seria aquela que ficaria conhecida como Eva, mas seu nome em nenhum momento é dito. Estamos em 2 mil antes de Cristo quando, após matar sua mãe, ela adota dois irmãos gêmeos, Jacob (Jacó) e um outro que viríamos chamar de Adão (mas poderia muito bem ser o bíblico Esaú). Ela escolhe Jacob para assumir seu posto, já que Adão não se mostra uma pessoa pura o suficiente. Adão, por sua vez, a mata, provocando a ira de Jacob que se vinga não o matando, mas jogando-o na “fonte da vida”, causando nele algo que seria pior que a morte. Nasce aí o monstro da fumaça preta, o erro que Jacob passaria os 4 mil anos seguintes tentando reparar.

Tudo que o monstro quer é fugir da ilha, que para ele funciona como uma prisão. Mas, para isso, é preciso vencer os guardiões e destruí-la. Jacob, sentindo que pode ser derrotado a qualquer momento, começa a testar candidatos que o substitua no caso de sua morte. Neste meio tempo, vários grupos de indivíduos chegam à ilha, por vezes acidentalmente, mas outras tantas na intenção de desvendar seus segredos. Desde civilizações antigas com toda a sua mitologia, a  exploradores da era das grandes navegações e cientistas do século XX.

O avião que lá cai em 2004 e que origina a série nada mais é que uma leva de candidatos para substituir Jacob como guardião dela. Escolhidos por Jacob por serem pessoas de bem que viviam vidas, digamos, solitárias. Durante os seis anos da série, estes candidatos são testados. À medida em que são utilizados e cumprem com sua função, morrem. Até que sobram apenas seis deles no momento em que finalmente o Adão, após muito manipular a todos ali, mata o Jacob e segue com seu plano de destruição da ilha.

Entre a queda do avião e a morte de Jacob muita água rola. Desde viagens no tempo e espaço, passando por guerras entre cientistas e homens de fé, contatos com pessoas já mortas, explosões de bombas atômicas e a origem de uma realidade paralela onde todos aqueles personagens parecem viver uma vida melhor e alheia à que a existia quando caíram na ilha.

Um personagem de nome Desmond se mostra muito importante por conseguir sobreviver a uma explosão magnética, o que o tornaria capaz de linkar todas as realidades, fosse no tempo, no espaço e, vá lá, na existência.

Naquela que seria a realidade paralela, Desmond se encarrega de relinkar todos os personagens relembrando-os da vida que levavam na ilha. Na realidade original, Desmond é a arma. Era o que Adão precisava para destruir a fonte da vida.

Jack, o personagem principal, foi escolhido como “o” candidato para evitar o desastre. Ele deixa que Desmond desative a fonte, o que torna o Adão novamente humano. Uma vez humano, Jack o mata e a reativa. A vida na Terra é preservada. Jack, esfaqueado na briga com o Adão, morre. Hurley assume temporariamente o posto de guardião, tendo Ben como seu ajudante.

É quando Jack encontra seu pai morto na realidade paralela. E finalmente descobrimos que ela, na verdade, nada mais era que a vida após a morte.

Estavam todos mortos? Sim. Na realidade paralela. Mas aparentemente só nela.

Todas as respostas são dadas? Bem longe disso. Porque o que move o mundo são as perguntas. Mas só quem acompanhou os seis anos de série internalizou bem isso.

The end.

Eu e o luto

Eu tinha nove anos quando decidi ignorar as ordens de meu pai de deixar seu quarto porque ele estava com muita dor de cabeça e precisava dormir. Sabia que ele costumava  cair rápido no sono e podia eu continuar a assistir às “câmeras escondidas” do Silvio Santos em sua TV sem o menor problema. Mas não se passaram nem dez segundos quando vi minha mãe pular por sobre seu corpo e se agarrar ao telefone ligando para meu tio que era médico. Foi quando notei que meu pai se debatia no colchão em convulsões. Sofria ele ali o primeiro de três derrames que lhe atingiriam naquela noite. E que levariam sua vida embora cinco dias depois.

A notícia veio na madrugada. Meu tio disse na ligação que precisava conversar conosco. Meu corpo tremia. Todos nós tremíamos. Quando a porta abriu e ele abraçou minha mãe, caí em desespero. Ninguém tem estrutura emocional para receber uma notícia dessas, muito menos uma criança de nove anos de idade. A pior dor que senti na vida. E que ainda dói vez em quando, como agora, no momento em que escrevo.

Eram nove horas da manhã quando saía do banho. Estava me arrumando para o velório. Passou um comercial de uma rede de postos estrelado por B.B. King (acho). Na ocasião tocava uma música que eu gostava. E me dei a assobiá-la. Logo fui censurado por meus parentes. Achavam desrespeitoso de minha parte para com meu pai que falecera horas antes. E assim silenciei. Por muito tempo. Só voltei a sorrir sem medo anos depois, já no final da adolescência. Até então, cada vitória era amarga, arrancava-me sorrisos com a estranha melancolia de que algo faltava e, pior, como se eu inconscientemente tivesse alguma culpa no ocorrido.

Meu pai era uma das pessoas mais felizes que existiu. Um cara que levantava o astral de qualquer ambiente. Mas infelizmente  temos a cultura de respeitar nossos entes queridos que perdemos com nossa tristeza. Eu não quero isso para mim. Curto mais certas culturas gringas que reúnem amigos para celebrar a lembrança de um finado em vez de chorar a sua morte. Por mim, meus amigos organizariam um churrasco no dia do meu enterro. E encheriam a cara ao som das músicas que eu mais curtia.

Ontem morreu Fefeu, outro mestre, a exemplo de meu pai, da arte de transformar um encontro entre amigos em momentos extremamente felizes. Estávamos distante há alguns anos, como naturalmente costumamos ficar da maioria de nossos amigos (infelizmente). Mas ele nunca deixou de ser uma figura que eu fazia questão de abraçar sempre que encontrava aí pelo mundo.

Em uma das várias lembranças que agora ressurgem, Fefeu comentava uma piada que contara para a sua mãe sobre a morte de seu irmão (falecido uns dez anos atrás). Sim, da morte do irmão dele. Para a mãe dele. Se bem lembro, “brincava” ele com o título da novela “Éramos Seis”, mas posso estar enganado pois até onde sei eles eram só três irmãos (que somados aos pais “eram cinco”). Desrespeitoso? Não. Não acho. Nunca conheci o irmão dele, mas sempre vi em Fefeu um cara que tirava o melhor do pior. Sempre curto pessoas assim. E este era só mais um momento. Talvez por isso gostasse dele. Talvez por isso ele fosse tão querido.

Desde ontem choro aqui e ali. No ônibus que me levou em meio à chuva ao aeroporto. No avião. Agora enquanto escrevo estas palavras. E me dá uma agonia. Porque ele não era um cara das lágrimas. Fecho os olhos e lembro dele sorrindo. É sempre assim. Sempre foi assim. E sempre será. Por isso quero tanto que o tempo corra. Para que a lembrança dele deixe de ser algo que me leve às lágrimas.

Até lá, pode deixar seu sorriso no caminho que eu me aperto e consigo passar com a minha dor. Porque me interessa muito mais que você me contamine que o contrário.